‹ voltar
semente2026-09-29

Como a minha atenção ~não~ funciona

São 8h45 da noite, de uma terça-feira. Escrevo isso aqui, com o intuito de, além de usar para explicar um problema ao meu psicólogo, passar pelo processo de descrever tais problemas, ideias, e problemáticas. Talvez eu entenda um pouco mais sobre mim mesmo no processo. Sinta-se a vontade para continuar lendo, apesar de tudo isso.

Não me considero um escritor decente para essays. Nem de longe consigo estruturar minhas ideias de uma maneira coesa. Talvez, só talvez, o retrabalho seja o que falta. Ironicamente, já estou entrando em uma tangente logo no segundo parágrafo. A ideia era dizer que eu geralmente não sei como começar. Acredito que posso iniciar a partir de um problema: Minha atenção não é lá das melhores.

Eu cresci com telas. Da minha infância, a partir dos seis anos, em diante, aprendi a ficar sentado 14-16 horas por dia na frente de um computador. Me considero, uma das cobaias do scroll infinito, tal qual uma criança que fumava no início dos anos 20

Durante o processo de escrever esse artigo, mesmo sendo algo que eu considero "prazeroso" fazer - De novo, essays não são meu forte, mas é um subgênero de algo que eu amo, que é a escrita - Já pensei em desistir mais de 4 vezes. Não sei exatamente como consegui, mas estou resistindo. Acredito que o foco é um subproduto de fazer algo para alguém. Preciso mostrar esse problema para meu terapeuta e, me conhecendo, sei que fazer esse pseudo-artigo será mais fácil do que falar, já que geralmente eu me embanano e acabo trocando de assunto com frequência durante a terapia

Digressão feita, vamos continuar - Depois de escrever essas quatro palavras, eu pesquisei se digressão realmente era a palavra que eu queria, quase entrei no substack para ver se tinham respondido um comentário que fiz num artigo. Consegui resistir.

Acredito que crescer com telas tenha feito com que eu não consiga ter uma atenção em coisas que não tenham uma recompensa imediata, tirando meus surtos de hiperfoco, que apesar de úteis, por vezes são torturantes e não necessariamente servem a um objetivo final, como aprender algo ou realizar um projeto.

Depois de um hiperfoco em que criei meus sites e terminei de ler bleach, não consigo mais iniciar tarefas. Não é uma questão de organização, já que sei exatamente o que preciso fazer, com um nível de detalhe que eu nunca havia feito antes... Eu só não consigo.

Querer e tentar nunca foi um problema para mim, honestamente. Eu já varei madrugadas resolvendo problemas de trabalho, já passei dias matutando em cima de apenas um problema, concatenando soluções. Não é uma preguiça, ou algo do tipo. A força de vontade nesses casos estava presente, mas não era o motor, e sim uma fonte de inércia: Eu continuava o que já havia começado

Não é nem uma questão de fazer algo que eu não gosto. Assim como demorei a escrever esse texto, mesmo sendo algo que estava com vontade, mesmo escrita sendo algo que eu gosto, eu demoro para fazer quase tudo que eu tenho vontade. Eu amo ler, e faz mais de uma semana que eu não consigo abrir um livro e focar. O mesmo acontece com programação, desenho, e qualquer outro projeto que eu esteja em mente

E, talvez, não seja nem uma questão de foco em si. Agora que eu consegui passar do "teste inicial" que é começar, as coisas estão fluindo,

Já tentei montar um pequeno sistema em que eu seto metas tão, mas tão pequenas, que ao realizá-las, é quase impossível que flow não continue. Mas mesmo com essas metas, meu problema acaba sendo iniciar as atividades.

Se eu tenho tudo "pronto", com um nível de fricção baixo, eu consigo manter o foco. O meu celular está do meu lado, mas como não há nada de interessante nele, após uma limpa em quase todos os apps que roubavam meu tempo, ele não desperta mais meu interesse.

Isso que os vídeos curtos já foram absolutamente extirpados da minha vida. Não sei o que seria de mim sem ter tomado essa decisão, para ser brutalmente honesto.

O problema, agora percebo, acaba sendo começar. E não sei se adianta um "tenha disciplina", já que, por deus, eu tentei! Realmente tentei. Queria um sistema, mas acredito que adicionar mais um passo de fricção entre eu e "get shit done", apenas me distanciaria de resolver o problema. Por mais que eu tenha criado um obsidian, em que eu tenho roadmap de ideias que estou trabalhando, feito uma maneira de puxar tarefas para minha área de trabalho, eu não as sigo.

Acredito que meu problema se encaixe mais no "fazer o que precisa ser feito" do que exatamente num attention span, apesar dele ser problemático em tarefas que eu acho difícil, ao passar pela "fome inicial", consigo seguir sem problemas.

Com isso, escrevi algumas hipóteses e soluções:


Hipótese 01: Minha dopamina está frita.

Começar uma tarefa de programação, estudar uma língua nova, desenhar, ler Crime e Castigo, que apesar de me deixar sem palavras a cada capítulo, tem uma linguagem um pouco mais complexa do que estou acostumado. Tudo isso tem um custo cognitivo maior do que ver o 13o "enquadros de moto" do dia em 2x, no youtube.

Solução 01: Encarar uma parede no começo do dia.

Usaria isso para "resetar" minha atenção e o que eu realmente considero "divertido" ou não. Funcionava comigo quando eu estava no ensino médio, talvez volte a funcionar agora depois de adulto.


Hipótese 02: Eu tenho um ecossistema de diversão e de "trabalho" misturados. Apenas um usuário no pc, com meu algoritmo de "procurar tutorial no youtube" mesclado com o de "estar deboa sem fazer nada".

Ao procurar um tutorial de desenho, me deparo com um vídeo que talvez seja mais divertido a curto prazo, mas não vai me agregar nada além de uma dopamina barata. Isso faz com que eu sempre tenha tentações a mostra e, até mesmo o mais disciplinado dos homens, ao ser confrontado com tentações sem limite, uma hora cede

Solução 02: Separar tais ecossistemas.

Verificar se consigo criar uma "conta de estudos" no youtube, além de um user novo no linux. Com isso, eu entraria no modo "estudo", mais fácil, bastando apenas mudar meu ecossistema. Assim, meu cérebro não seria enganado tão fácil.


Conclusão:

Ando realmente tentando melhorar como eu faço as coisas. Não é nem questão de produtividade, já que, por deus, eu quero que a produtividade se foda. É sobre recuperar a minha atenção e coloca-la no que >eu< quero. Não é querer performar mais, mas poder, no fim de um dia, conseguir ler uma história que eu acredito ser interessante, e não mais um dos infinitos vídeos que eu vejo e não lembro no dia seguinte

É fazer um gagdetzinho apenas porque eu acho interessante aprender coisas novas, mexer com hardware porque sim!

Recuperar quem eu realmente sou.