um ensaio sobre produzir arte
‹ voltar
madura2026-04-10

Eu sempre tive uma relação tóxica com a escrita. Uma arte que sempre gostei de consumir - desde que me entendo por gente estou com um livro por perto - e sempre gostei de produzir. Aos 12 anos eu escrevia textos em um grupo de Facebook chamado GT’s 10/10.

Gostava dos meus rascunhos, das minhas ideias, mas raramente da minha técnica. Não me lembro de me divertir escrevendo, depois que atingi meus 16 anos. Quase sempre era um vômito de uma alma cansada, relatando o que sentia como forma de entender o que realmente estava sentindo.

Tal qual um cristão que só se volta a Deus quando está prestes a perder tudo, eu me voltava para a escrita nos momentos mais difíceis que vivia. Não me orgulho disso, mas sinto que o processo foi algo que eu desaprendi a aproveitar, me importando apenas com o resultado final, como se a ideia, o que sentia e tudo o que passei para chegar lá não fosse importante

Com isso, acabei escrevendo muito menos do que gostaria sobre coisas que adoraria falar. Textos que lia, estudos que fazia, ideias que tinha - tudo perdido em meio a uma vã busca por alcançar um senso estético que, provavelmente, nunca serei capaz de alcançar. Ironicamente, isso me distancia mais do escritor que eu poderia ser.

Recentemente, em uma tentativa de me conectar com alguém que sinto escorrer pelas minhas mãos, comecei a pintar. Um breve contexto antes:

Todos meus melhores amigos são artistas, diferente de mim, que optei em seguir pelas exatas. Meu melhor amigo é animador, outro é músico, minha melhor amiga é ilustradora e mexe com 123091230 artes, e essa pessoa especial é pintora. Nem todos levam como full-time job, mas todos praticam e tem a arte como parte especial de si. Eu, por outro lado, sempre escrevi nos momentos ruins, mas nunca segui como hábito. Contexto dado, voltemos a história

Nessa saga de pintura me permiti aproveitar o processo e errar. Afinal, boa parte dos meus amigos são gênios nessa área e passaram anos se aperfeiçoando; seria de um egoísmo e de uma pretensão absurda pensar que me daria bem de primeira. Nunca desenhei bem, então obviamente minhas pinturas tem uma técnica horrível, mas foi completamente divertido me afundar em meio a bagunça que eu estava fazendo. Cores que não tinham um padrão, já que misturava quantidades diferentes de azul e branco a cada vez que a mistura acabava e meu céu ainda não tinha terminado; Detalhes que não fazem sentido, nada disso me importava: Era divertido me afundar na bagunça que estava fazendo, ver que tudo estava dando errado e mesmo assim conseguir rir disso.

E eu queria sentir novamente essa diversão, que lembro ter sentido quando criança, com a escrita. Esse texto é uma tentativa disso. Aproveitar a bagunça que é a minha mente e levar isso para a escrita, como um exercício de humildade.

Nunca escreverei como os grandes. Nenhum texto meu será tão bom quanto algum de Shakespeare, Tolkien, Lewis, ou outros autores que amo. Mas eles poderão ser tão bons quanto os que eu escrevia aos meus 12 anos, sobre um homem que partia numa jornada para se autoconhecer após a morte de sua esposa. Eles poderão ser tão bons quanto a conversa com Deus que meus personagens tinham, questionando se a vida que viviam valia a pena.

A arte é uma expressão humana. Independente de qual forma seja, o mais importante nunca é o resultado final. Por isso que odiamos arte de IA: Falta o processo.

O processo de se sentir mal e pegar um lápis para desenhar, ou de se sentir apaixonado e escrever uma carta para sua amada. O processo de vomitar tudo o que sua alma sente em um papel, ou em um meio qualquer. A arte é a forma de transformar sentimentos humanos em algo belo, a partir de um esforço consciente para isso. A falta de esforço faz parecer bobo, como se não tivesse um Animus por trás

Talvez, tecnicamente, uma “arte” de IA seja tão boa quanto a de um especialista, mas nunca terá a alma por trás. Meu texto é cheio de erros de português, coesão, pulo de um assunto pro outro sem a menor consideração pelo entendimento do leiteor, e isso é um reflexo de quem eu sou. Um texto de uma LLM nunca terá isso, mesmo tecnicamente “perfeito”.

Por fim, não sei se há uma conclusão - outra coisa que eu odeio fazer - além de: Se divirta. A pressão por resultados já é o suficiente estando apenas no trabalho, para que fazer em sua arte também? O que podemos fazer além de aproveitar o pouco tempo que temos e deixar uma marca no mundo, mesmo que seja um bilhetinho para alguém que você ama?

A dor é parte de ser humano, e lidar com ela é algo que todos tentamos todos os dias. Não tem nada melhor que expressar ela em arte, assim como expressar o amor que sentimos também na arte. A dor é um subproduto do Amor falho, que é o do Humano.

O Amor falho também é um amor. E também significa algo, mesmo que eu não saiba exatamente o que ele é, e nem onde estou querendo chegar por aqui. Voltemos ao assunto:

Se divirta enquanto faz o que ama. Se divirta escrevendo, lendo, pintando, ou fazendo o que quer que seja a sua arte. O processo é mais importante que o resultado final, embora o resultado final melhore a cada vez que você pratica.

Não estou dizendo para não tentar melhorar tecnicamente. É isso que estou buscando na escrita e na pintura. A cada texto, tento me expressar melhor, a cada pintura, melhorar um aspecto em específico. Mas isso não devia ser uma pressão, e sim uma maneira de se divertir mais enquanto você faz. Arriscar um estudo novo, um estilo de escrita diferente.

Assim como na minha vida, nunca soube terminar. Textos, relacionamentos, ciclos. Então, querido leitor, esse texto vai terminar abruptamente, tipo.. ago-