Paralelos - Texto próprio
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madura2024-06-12

Entro num café. Peço o de sempre, mas não ouso dizer isso. Tenho medo do barista, que me vê há 3 anos, no mesmo horário, repetindo as mesmas cinco palavras todos os dias, não lembrar meu pedido. Ele sorri ligeiramente. Não sei o que ele pensa disso, mas pouco me importo, sinceramente.

Piano Man, do Billie Joel toca ao fundo. Meu café preto finalmente chega. Sento-me ao fundo do salão, na última cadeira a direita. De lá, tenho visão de todos os que estão sentados no estabelecimento.

Eu não sei disso, mas o homem velho logo ao lado, acaba de se lembrar que é o 13ºo aniversário de morte da sua falecida esposa. Ele sorri gentilmente, talvez lembrando de como eram felizes juntos. Liga para sua filha, mas não é atendido.

Noroeste dele, uma garota está tentando muito não chorar. Não consigo perceber também. Estou muito absorto pensando em como vou apresentar os resultados do trimestre no trabalho. Provavelmente ela acabou de terminar com o namorado, e é a primeira vez que vem aqui sem ele.

Logo ao lado dela, uma criança luta pela atenção da mãe. Ela está muito ocupada pensando em como vai conseguir pagar o aluguel esse mês, e o manda calar a boca. Ele senta na cadeira, e começa a brincar com o dinossauro de plástico que trouxe. Mergulha no café da mãe, mas ela não vê isso, em meio as planilhas que está montando

Levanto, pago meu pedido. O barista não sorri mais como antes. Descobri, algumas semanas depois, que havia levado um pé na bunda da namorada. Entro no carro, dirijo até o trabalho. Consegui manter meu emprego, apesar dos resultados negativos.

Chego em casa, oito horas depois. Meu cachorro está latindo. Brinco um pouco com ele. Vejo meu celular, zero notificações. Não lembro a última vez que liguei para os meus pais.

Me reviro até dormir. A última vez que olhei no relógio eram 4 horas da manhã.

Acordo no dia seguinte. Entro num café.

“Um café preto, por favor.”